quarta-feira, junho 09, 2010
Dietrich Schwanitz – (“Cultura – Tudo o que é preciso saber”) afirma que uma pessoa culta deve saber aquilo que deve gostar, mas deve também saber aquilo que “não deve” gostar.
Numa análise simplista esta frase aparenta um irritante pretensiosismo, pois parece sugerir que quem pretenda passar por “culto”, deve Não Gostar de certas obras, ou então fingir que não gosta delas e se as quiser desfrutar, o melhor é fazê-lo às escondidas. E, desta forma preserva a imagem de “pessoa culta”
No entanto, a frase tem alguma razão de ser. O gosto evolui com a experiência. Quem nunca provou um doce de ovos-moles, ou um pastel de Belém, pode considerar uma cavaca dura das Caldas um manjar dos deuses. O “mau gosto” que deriva da ausência de outras experiências, é impróprio de alguém que se pretende culto.
Quem se considera como possuidor de vasta cultura não pode ignorar que existem doces de ovos-moles ou pastéis de Belém. E, se os souber provar, terá que declarar: não gosto de cavacas duras!
Mas então de onde vem aquela frase: gostos não se discutem? Não será o gosto uma questão subjectiva? Terá alguém o direito de impor um padrão estético, decretando o que é bonito e o que é feio?
Parcialmente a resposta é sim!
Há de facto formas de apreciar que são do domínio subjectivo – por exemplo a emoção que sentimos a ouvir uma determinada obra – mas também há formas de apreciar que são objectivas – qualidade da orquestração, qualidade sonora, ausência de fífias, mestria técnica dos intérpretes, etc.
A música foi feita para ser “sentida” para transmitir emoções. Como ouvinte, quando gosto do que oiço, sinto-me imerso num mundo irreal. Sinto-me transportado para um espaço onde sinto alegria ou melancolia, entusiasmo ou desespero.
É essa a emoção que procuro quando oiço música. Mas há aspectos objectivos que podem ser reconhecidos como determinantes na criação da emoção.
Vejamos alguns.
Em primeiro vejamos a estrutura da composição musical, a forma como se arrumam os sons. A sequência das notas musicais, a ordem que é assim construída apela a uma abordagem racional. Aliás, a música esteve sempre próxima das ciências, e em particular com a mais racional de todas as ciências – a matemática.
Na idade média, após a queda do império romano do ocidente, um filósofo chamado Boécio, (480-524) de origem romana ao serviço do rei ostrogodo Teodorico criou um programa pedagógico - o quadrivium -que envolvia quatro disciplinas: música, aritmética, geometria e astronomia. Colocada a Música entre as ciências exactas, admitia-se que se podia criar música utilizando apelas a lógica
Mais tarde, João Sebastião Bach, confrontado com a necessidade de mensalmente ter que apresentar uma obra nova, acabou por descobrir métodos que lhe permitiam cumprir as suas responsabilidades de forma célere.
Bach (Ver Daniel J. Boorstin – “Os Criadores”) acreditava piamente que havia “uma maneira” correcta de escrever uma peça musical. Quando ouvia o início de uma fuga, segundo conta o filho Carl Philipp Emanuel, ele dizia logo “quais os recursos de contraponto se poderiam aplicar e de qual deles um compositor que se prezasse devia servir-se”.
Tinha as suas regras tão claramente assumidas que os seus manuscritos são notáveis pelo aspecto limpo e ausência de correcções.
Bach considerava-se um artífice. Aperfeiçoara um método que qualquer um poderia utilizar: “Tive de trabalhar muito; qualquer outro que trabalhe tanto como eu chegará onde cheguei.” Não é verdade. Bach foi um génio e a sua música é muito mais do que a aplicação fria de regras para juntar sons. Ouvir a Missa em Si Maior, é sentir a presença de Deus. Só um génio, pode fazer sentir a presença de Deus a um ateu.
A supremacia da música erudita e do jazz sobre a música dita “ligeira”
A música dita ligeira é como o próprio nome sugere uma música “levezinha”, isto é, não é uma música complexa nem na sua melodia nem na sua harmonia. Para quem não está familiarizado com os conceitos eu esclareço de forma expedita: Melodia é a evolução da linha sonora que o cantor emite e harmonia a evolução dos acordes tocados pelo piano que acompanha.
A harmonia da música ligeira é normalmente muito simples, às vezes bastam 3 acordes diferentes para ter o acompanhamento estabelecido. Apesar disso, há melodias bonitas com harmonias extremamente simples. Mas convenhamos que são raras, porque os alicerces do edifício não suportam grandes arrojos arquitectónicos.
A harmonia cria a estrutura, o “ambiente”, e este é determinante para a transmissão das emoções.
É sabido que a utilização de acordes menores transmite um clima melancólico enquanto que os acordes maiores transmitem alegria.
A utilização de notas alteradas nos acordes, isto é a adição de notas que não pertencem ao acorde normal provoca ambiguidades, o acorde deixa de ser puro e abre outras perspectivas para os acordes seguintes. E ocasiona tensões: a música fica num estado instável e sentimos a necessidade de ver chegar a estabilidade. Mas ela vem de forma fugaz e volta a fugir.
Este jogo não é apenas um deleite para a razão, é também a base das emoções. Melancolia, alegria, complacência, tristeza que faz chorar e o paradoxo da simultaneidade do prazer por sentir as lágrimas. Isto só a grande música é capaz de fazer. Fechem os olhos, oiçam o adágio da quinta sinfonia de Mahler, e digam lá se não tenho razão!
Para se evoluir no gosto pela música é pois necessário um esforço de ouvir coisas diferentes, habituar o ouvido a novas sonoridades.
Claro que há quem não queira fazer o esforço e queira continuar a gostar dos ABBA. Tem obviamente todo o direito. O mesmo direito de quem prefere cavacas duras a pastéis de Belém.
Pois comam-nas todas e deixem os pastéis de Belém para mim!
sábado, outubro 10, 2009
quinta-feira, setembro 24, 2009
segunda-feira, maio 11, 2009
A Sul da Fronteira a Oeste do Sol"segunda-feira, março 02, 2009
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
segunda-feira, dezembro 22, 2008
Ninguém gosta de assumir isto, mas em todas as famílias existe uma tabela sobre o valor que se deve atribuír aos familiares e amigos para efeitos de prendas natalícias.
Então é assim:
Conjuge, ascendentes e descendentes: Valor base
Familiares próximos (irmãos, cunhados, tios, sobrinhos) - Metade do Valor base
Familiares afastados e amigos - Um terço do Valor base.
Outros conhecidos, amigos afastados - um quarto do valor base.
Vá lá! Digam que eu estrago a mística do Natal.
sábado, dezembro 20, 2008
quinta-feira, dezembro 04, 2008

Os livros que li depois das férias - V
Uma visão nova em muitos aspectos da história de Portugal, recheado de vários factos curiosos: sabiam que:
- a rainha D.Isabel mulher de D. Dinis criou um lar para recolher as mulheres vítimas da violência doméstica
- No ano em que D.Afonso Henriques a conquistou (1147),Lisboa tinha o tripulo da população de Paris e o quintuplo da população de Londres
- Lourenço Martins, judeu português fundou em Londres um banco no ano de 1385 que existiu até 1960, ano em que foi comprado pelo Barclays
- A fama dos médicos portugueses era tão grande que a rainha Isabel I de Inglaterra veio aqui escolher o seu médico pessoal
Estas e muitos outras curiosidades ilustram a inteligência e criatividade de um povo que depois se perde na incapacidade de realizar.


quarta-feira, dezembro 03, 2008
No Largo de Sapadores abriu recentemente uma pequena loja de venda de produtos regionais. Na minha opinião, a loja está mal situada, nas traseiras do mercado, onde, salvo quem se dirige para a paragem de táxis, não passa ninguém.
Mas, porque entendo dever premiar o empreendorismo, fui lá depois de almoço, com a intenção de comprar uma morcela de arroz de Seia, e mel da Serra da Gardunha.
A dona (ou será empregada?...) do estabelecimento estava a atender uma senhora Cliente que tinha um problema complicado, pelo que fui directamente tirar os produtos da prateleira e coloquei-me junto à caixa registadora, em atitude aguardante.
A dona (ou será empregada?...) ignorou-me totalmente e resolveu fazer um telefonema para tirar dúvidas sobre o problema complicado que a senhora Cliente tinha.
Voltei a pôr o mel da Gardunha e a morcela de arroz de Seia na prateleira e saí.
Passei pela Farmácia do Monte e resolvi ver como estava o colesterol. Tirei uma senha, e coloquei-me a meio da sala em atitude aguardante.
A jovem farmaceutica tirava dúvidas a uma senhora Cliente. A outra empregada (ou será a dona Drª Farmaceutica?...) estava no outro extremo do balcão fazendo uma administrativa escrituração, pelo que me ignorou completamente.
As dúvidas arrastavam-se. (" ...a embalagem azul é pediátrica?...") Ofereci a minha senha a uma outra senhora Cliente que acabara de entrar e zarpei.
Sou normalmente muito tolerante para com as pessoas, mas completamente intransigente com os "fornecedores"!
Será esquizofrenia?

sábado, setembro 20, 2008
terça-feira, setembro 02, 2008
segunda-feira, setembro 01, 2008


sexta-feira, junho 27, 2008
Esta gravação foi feita com uma câmara normal de amador, por isso o som é o que se arranjou.
E já lá vão três anos. Foi em casa da Céu e do Benjamim, que a banda recomeçou a tocar.
Entretanto, fizémos um up-grade no hardware e, esperamos, também ter progredido musicalmente.
Amanhã, no mesmo local, as mesmas pessoas poderão fazer o seu julgamento.
(Aqui entre nós, o julgamento é sempre muito benévolo; vantagens da amizade)
segunda-feira, maio 26, 2008

segunda-feira, maio 05, 2008
segunda-feira, abril 28, 2008

Os livro que eu li:
"Na praia de Chesil"
sexta-feira, abril 11, 2008
sexta-feira, março 21, 2008
terça-feira, março 18, 2008
sexta-feira, março 07, 2008

Espiritualidade versus razão. Qual o sentido da negação do indivíduo em nome de uma hipotética felicidade universal?
terça-feira, janeiro 22, 2008

Ah! Afinal não é um défice meu…
Já alguém me tinha referido que era muito interessante um livro anterior deste senhor que é psiquiatra. E, a leitura na livraria, do prefácio feito pelo Carlos Fiolhais, forneceu-me o impulso final para a compra.
E fiquei feliz, porque descobri logo na introdução, que aquilo que julgava ser um gap nas minhas competências cognitivas, não é mais que uma impossibilidade.
Estou a falar da incapacidade de compreender as mulheres.
Diz o autor: “A motivação para escrever (o livro) nasceu da necessidade profissional de compreender identidades diferentes da minha, nomeadamente a feminina. Devo confessar que tal compreensão é impossível”
Haja Deus!

Este Senhor chama-se Durão Barroso?
domingo, setembro 16, 2007

No seu livro, Simon Laquedam transmite uma mensagem de Deus à humanidade. Cheio de auto-ironia e consciente do seu próprio desaparecimento, Deus discorre, com humor, sobre a génese do universo, a matéria e a luz, o acaso e a necessidade, as dramaturgias do amor, do sexo, da ambição e do conhecimento. Deus explica no texto que o mal é indispensável: “Por vontade minha, e para que eles pudessem ser livres, o mal instalou-se entre mim e os homens… A Moralidade não é o meu forte”
“A eternidade não é um tempo interminável: é a ausência de tempo”.
“O tudo e o nada confundem-se”
quarta-feira, setembro 12, 2007

Mas essa adopção não foi fácil. Ciosos das suas idiossincrasias e hábitos, muitos comerciantes, entre os quais um tal Sr Steve Thoburn, continuaram a servir os seus clientes medindo os produtos em pés e jardas e pesando-os em libras e onças.
Esta desobediência civil, deu origem a um movimento os “Mártires do sistema métrico” que finalmente obteve uma vitória definitiva, com a capitulação da Comissão Europeia que decidiu abandonar os seus esforços para instaurar completamente o Sistema Métrico.
Nunca compreendi, como é que um povo pragmático, se sente à vontade convertendo jardas em pés (1 jarda = 3 pés) , pés em polegadas (1 pé=12 polegadas), libras em onças (1 libra =16 onças), etc, ou pura e simplesmente contando os pontos no ténis 15, 30, 40, game.
Mas isto faz parte do encanto dos britânicos, como os guardas da torre de Londres, os Beatles, o Sr. Shakespear, o humor, os Monty Phyton, o Sherlock Holmes, o rock e o british-blues.
Já me chateia a mania da superioridade que os leva a dizer cobras e lagartos da nossa Polícia Judiciária.
Patriotismo também é isto: se alguém tem que dizer mal de alguma coisa portuguesa somos nós. Era só o que faltava!...
terça-feira, setembro 11, 2007
sexta-feira, setembro 07, 2007

ou Lucy in the sky with diamonds
Talvez um dia os meus amigos se perguntem: “mas como é que isto começou?...”
Primeiro foi o vício, aparentemente saudável, de ouvir música no leitor de mp3. Sempre que estava sozinho, catrapumba: música com ele.
A seguir descobri que havia certas músicas que tinham magia: criavam um “espaço” onde eu me encontrava (claro que era eu que criava o espaço onde estava a música). Esse espaço era percorrido pelos sons que descreviam órbitas fantásticas. Todas estas órbitas evoluíam de forma interdependente, com os sons mais graves a terem mais poder para condicionar as órbitas dos mais agudos.
E depois, (juro que sem tomar nada) o mundo tornava-se irreal e só o “espaço-música” era real.
E tornei-me adito: Não passo sem o meu espaço, fecho os olhos, ponho a tocar um concerto de piano ou violoncelo e torno-me imortal. O espaço é música e o tempo não existe.
Procuro incessantemente novas músicas com esta magia. Sobretudo clássica e jazz.
Sei que mais cedo ou mais tarde esta minha dependência não vai dar bom resultado.
quinta-feira, setembro 06, 2007

LIVROS LIDOS NAS FÉRIAS
"O Pintor de Batalhas" de Arturo Pérez-Reverte
Faulques estava convencido que a guerra está inscrita no destino do homem.
A violência é uma lei da natureza e não há nada que possamos fazer contra isso.
“Não há saída! Há consolo. A corrida do prisioneiro que enquanto não lhe acertam, julga ser livre...
Às vezes basta isso: O simples esforço para compreender as coisas. Também há analgésicos temporais. Com sorte dão para ir aguentando, e, bem administrados servem até ao fim…a lucidez, o orgulho, a cultura, mesmo o amor…”
A mulher por quem se apaixonou e com quem partilhava uma visão desencantada sobre o mundo, morreu um dia ao seu lado atingida pelo fogo de um dos contentores quando os dois faziam a cobertura de mais uma guerra.
Numa das suas reportagens nos Balcãs, fotografa um soldado que está numa situação de desespero. Essa fotografia torna-se famosa e transmitida por todos os media.
O soldado que acaba por se salvar, é feito prisioneiro. E a sua cara na fotografia é reconhecida pelos carcereiros. Como consequência, a sua mulher e filho são assassinados. O soldado decide que, quando a guerra acabar, há-de procurar o fotógrafo e matá-lo.
Mas, para Faulques, o horror ultrapassou o suportável. E a fotografia revelou-se impotente para o descrever. O fotógrafo decide deixar a profissão, retira-se para uma pequena aldeia e inicia a pintura a óleo de um gigantesco quadro para mostrar a inata maldade do homem. E o horror supremo que é um homem matar outro homem.
O ex-soldado encontra o pintor e transmite-lhe a sua decisão: “Vim para o matar”. Mas conversam e o soldado deixa-se impressionar pela força da pintura.
Conversam e partilham o desencanto que sentem com o destino da humanidade, sempre com o ex-soldado a dizer: “Não se esqueça –estou aqui para o matar”. Mas isso não vai acontecer. Um dia o pintor entra pelo mar adentro sempre em frente. “E perguntou a si próprio o que haveria para lá das trezentas braçadas”.
A Arte conseguirá algum dia ajudar o homem a transformar-se? Deverá ser exposto todo o mal do homem, ou apenas mostrar o seu lado bom? (http://www.umtoquededivino.blogspot.com/).
sábado, setembro 01, 2007

A DÚVIDA!
Madre Teresa teve dúvidas sobre a sua fé.
sexta-feira, agosto 31, 2007

“Kafka à beira-mar” de Haruki Murakami
Kafka Tamura foge aos 15anos de casa, carregando o destino de Édipo que lhe foi profetizado pelo pai.
E fico-me pela citação da contracapa: “Neste romance, os gatos conversam com as pessoas, do céu cai peixe, um chulo faz-se acompanhar de uma prostituta que cita Hegel e uma floresta abriga soldados que não sabem o que é envelhecer desde os dias da Segunda Grande Guerra”.
A poesia anda por aqui. E a realidade que se f…

"A Missão" de Ferreira de Castro.
França. Inicio da Segunda Grande Guerra. Os frades de uma Missão discutem se deve ser pintada no telhado a palavra Missão que os porá a salvo dos eventuais ataques da aviação alemã. Se isso for feito, uma fábrica na proximidade cujo edifício é igual ao da Missão, tornar-se-á por exclusão facilmente identificável. Nela trabalham mais de trezentos operários e a questão moral que se coloca é esta: deverão os frades salvar a pele à custa da vida dos 300 operários? Para o trabalho de Deus, a vida de um frade vale mais que a vida de um operário? Uns acham que sim, outros que não.
Não havendo acordo, decidem colocar ao bispo que superintende na Missão. A resposta tarda, mas acaba por chegar por carta: pinte-se a palavra. O Superior da Missão, que no início era a favor da decisão de pintar, foi progressivamente mudando de opinião, e, cheio de dúvidas sobre a justeza da decisão do bispo, não transmite logo aos restantes frades a decisão superior. A dúvida permanece na mente do Superior. Salvar as vidas dos operários implica o pecado da desobediência.
Com o avanço das tropas nazis, a decisão acaba por se tornar irrelevante: Não há bombardeamentos e os alemães acabam por ocupar a Missão com a infantaria.
Finalmente, um jovem tenente alemão faz a vistoria às instalações e informa os frades que o comando alemão tenciona instalar-se no edifício pelo que dá a ordem: “Pinte-se a palavra Missão no telhado! Os ingleses um dia vão querer bombardear a região…”
terça-feira, agosto 28, 2007

sábado, julho 28, 2007

Porque sabiam que eu ia gostar da prenda, (apesar de nunca ter sido maoista), os meus filhos trouxeram-me, há dois anos, da China, o Livro Vermelho.
Simbolo da Revolução Cultural promovida por Mao Zedong a partir do ano de 1966, com a finalidade de afastar a "burguesia liberal" e repôr a pureza revolucionária inicial, depurando a Revolução de todos os desvios "revisionistas".
Entre 1966 e 1974 eu estava no Técnico e, como todos os universitários da época, fui atraído por novas ideias e visões do mundo, muitas vezes conflituantes e contraditórias entre si . Foi um periodo muito rico, fruto de circunstâncias que dificilmente se repetirão.
Houve o Maio de 68 em França e por cá, na sequência da incapacidade de Salazar, o Almirante Américo Thomaz escolhe Marcelo Caetano para a chefia do governo. Pela pequena abertura política concedida, entrou de froma imparável uma verdadeira revolução nos costumes, nas ideias, na cultura.
Não posso aqui fazer (nem o saberia...) a história desse periodo. Mas gostava de registar uma pequena imagem do que foi esse tumulto.
No Salão Nobre de Técnico, João de Freitas Branco, equipado com um pequeno gira-discos, dáva-nos a ouvir as óperas de Wagner e depois dáva-nos a sua leitura. Na Associação, tentávamos o renascimento do Club Universitário de Jazz Universitário. Quinzenalmente íamos ao Cineclub Universitário no antigo cinema Imperial, descobriamos a nouvelle-vague que serviu de porta de entrada, pelo menos para mim, para conhecer os clássicos americanos.
Depois havia os Doors, os Cream, Jimmy Hendrix. E o free jazz.Maio de 68, e a guerra colonial que nos esperava, trouxe-nos a vontade de virar tudo do avesso. Politicamente era dificil decidir para onde ir: líamos Trotsky, Lenine e Mao. Joschka Fisher, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, também ele adepto da Nova Esquerda, apelidou os movimentos estudantis de "anarco-mao-spontex". "Anarco" porque tinham influência dos movimentos anarquistas clássicos, "mao" porque se inspiravam num Mao mitificado, imaginado como não totalitário, e "spontex" porque eram contra toda e qualquer disciplina militar e burocrática normais nos tradicionais partidos marxistas.
Depois havia leituras. Num turbilhão desordenado, nós, estudantes de engenharia, discutiamos Freud, Lacan e a psicanálise, Saussure e a linguistica, Lévy Strauss e a antropologia... Não devíamos compreender mais de 25%, mas isso não nos atrapalhava a leitura nem a discussão.
Foram as circunstâncias, e não o nosso mérito, que nos porprocionaram este caleidoscópio extraordinário. Tenho saudades... claro!
quinta-feira, julho 26, 2007

Valerá a pena escrever?
"Neste mundo
em que as palavras não permanecem de todo,
como o orvalho não permanece
nas folhas
o que hei-de dizer
para a posteridade?"
(Novas Histórias ZEN)
quarta-feira, julho 25, 2007

“As formas de que se reveste o gosto de viver são numerosas. O leitor talvez se lembre que Sherlock Holmes apanhou um chapéu que por acaso encontrou na rua. Depois de o examinar, durante alguns momentos, concluiu que o seu proprietário se tinha inferiorizado na vida devido à bebida e que a mulher já não o amava tanto como antigamente. A vida nunca poderá ser aborrecida para um homem a quem um objecto encontrado por acaso ofereça uma tal riqueza de interesse. Pensai nas diferentes coisas que se podem observar, durante um passeio no campo. Um interessa-se pelas aves, outro pela vegetação, outro pela geologia, outro pela agricultura, e assim por diante. Cada uma destas coisas é interessante se vos interessa e nas mesmas circunstâncias um homem que se interessa por uma delas está melhor adaptado ao mundo do que o homem que não se interessa por nenhuma”.
Ora aí está!
Gosto de estrear um Moleskin com uma caneta de tinta permanente. Gosto que a empregada do café Portela no largo da Graça me dê os bons-dias. Gosto de andar de bicicleta. Gosto de comprar livros na Barata. Gosto dos pequenos almoços diários com a família, com sumo de laranja natural, pão quente e café fresco. Isto digo eu.
“Gosto de relógios de areia, de mapas, do sabor do café e da prosa de Stevenson” dizia o Jorge Luís Borges.
sexta-feira, julho 06, 2007

quinta-feira, julho 05, 2007

num campo azul
no alto
da madrugada”
vítor barroca moreira9 anos
Estive no miradouro do Monte a ver voar os pássaros e lembrei-me deste poema.
Havia uma loja da ITAU no campo grande. Não era um sítio das minhas preferências – demasiado barulho - mas às vezes ia para lá estudar (Química-Física, lembro-me bem!) com uma colega.
E havia lá uma venda de posters e num deles este poema. E lembro-me de achar que era um poema bonito e de me espantar com o facto de a espontaneidade de uma criança ser capaz de traduzir emoções complexas.
quinta-feira, junho 21, 2007

PORQUE TEMES A MORTE?
Virgílio Ferreira






















