
Em casa do meu avô, havia uma televisão em cima de um móvel alto. Hoje diriamos que não era sítio para colocar uma televisão, mas há 50 anos, ainda não havia um sítio estabelecido para se colocar a televisão.
E à noite vinha a família toda ver o milagre tecnológico e discutir como é que as imagens voavam pelo ar. As duas criadas, ficavam sentadas à porta da sala num banquinho. Era a concessão possível numa sociedade estratificada e salazarenta.
E a RTP, estava permanentemente com avarias e então lá vinha um "Interlúdio" ou um "Programa segue dentro de momentos". E para entreter, passava filmes com a filarmónica de Berlim dirigida pelo Karajan. Vi as sinfonias de Beethoven todas. Karajan com os cabelos brancos, vibrante de emoção e entrega, empolgava os músicos. E eu, miudo olhava para Cima, Karajan e Beethoven. Então sim: acreditava em Deus.

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