quarta-feira, março 28, 2007

Vi ontem na RTP


Passou ontem na RTP 1, a primeira parte de um bom trabalho do António Barreto sobre a evolução social em Portugal, comparando o antes com o depois 25 de Abril.
Para quem não se lembrasse, foi recordado que há 50 anos, havia fome.
E eu lembrava-me.
Todos os verões, eu ia com o meu avô para a quinta na Beira Alta. E como para as crianças não há diferenças sociais, eu vinha para a rua brincar com os meninos que viviam em casas perto da quinta. O meu avô não gostava muito, tinha medo que eles me pegassem os piolhos, mas nunca aconteceu.
Jogávamos à bola; eles subiam às árvores e eu ficava a ver a proeza com inveja; fazíamos fisgas para as quais eu fornecia as tiras de borracha de pneus velhos que havia na garagem e eles cortavam os ramos das árvores para o suporte; eles faziam habilidades empurrando um aro metálico com um gancho (único brinquedo que tinham) e eu achava que o meu carro de corda não tinha graça nenhuma comparado com aquilo.
Não me lembro quando foi, mas houve uma altura em que reparei que eles andavam descalços. A roupa estava sempre routa e suja. Depois reparei que as casas em que moravam tinham o chão em terra e não tinham água.

E depois reparei que não comiam aquilo que eu julgava que todos os meninos comiam: eu bebia leite e ovos mexidos e eles comiam bocados de pão molhados no vinho tinto.
Quando fiz a quarta classe, o meu avô ofereceu-me uma bicicleta que eu às vezes emprestava ao Fernando.
Ele era um ano mais velho que eu, mas acabou a 4ª classe também na mesma altura. De maneira que um dia perguntei-lhe para que liceu ia e ele respondeu que ia trabalhar com a mãe para o campo.
E o tempo foi passando e todos os verões eu sentia-me mais longe do Fernando. Eu dava grandes passeios de bicicleta e às vezes via-o ao longe com uma enxada ao ombro. Depois da adolescência deixei de ir passar os verões à quinta. A praia, os namoros, os grupos de amigos, os conjuntos, eram mais aliciantes.
A última vez que vi o Fernando já eu era adulto, casado e com filhos. Cumprimentei-o. Muito rapidamente, porque nenhum de nós se sentiu confortável no encontro. Só me recordo que ele parecia ter mais vinte anos que eu: pele engelhada, desdentado, magro.
Serás vivo Fernando? Desculpa lá pá, mas não consegui mudar o mundo!

1 comentário:

Anónimo disse...

Da nossa infância existem episódios que nunca vamos esquecer. O programa de António Barreto deveria ser visto por todos, mas os Portugueses não gostam de se olhar ao espelho,