segunda-feira, abril 02, 2007

Dimanche à Orly

Je m'en vais le dimanche à Orly
Sur l'aéroport on voit s'envoler
Des avions pour tous les pays
Tout l'après-midi... y'a de quoi rêver


O sonho. Algures uma outra vida.

Bécaud embarcava os seus sonhos nos aviões que partiam. Também há quem não necessite de aviões para voar com os seus sonhos.

Somos um povo habituado à aventura da procura, a ir para fora em busca daquilo que não temos cá dentro. Primeiro foi a Índia, depois o Brasil, depois a França. Ou isso ou esperar que venha um Dom Sebastião. O sonho ou está lá fora, ou vem de fora. Nunca se realiza por nós.

Sud Express não foi nome escolhido para este blog. Tentei vários antes, mas estavam todos indisponíveis. Como muita coisa na vida, nem todas as escolhas resultam da nossa vontade e, por muito bom que seja acreditar que somos donos do nosso destino, e que podemos formatar o nosso futuro, as oportunidades podem não surgir. Apesar disso, acho que é verdade que as oportunidades só surgem se soubermos o que queremos, se formos capazes de sonhar.
Em linguagem de consultor eu diria assim: primeiro há que ter uma visão para onde queremos ir depois é estar atento; só vemos as oportunidades que estamos preparados para ver.

Sud-express é o nome do comboio que ligava Paris a Lisboa. A viagem demorava duas noites. E permitia a ligação ao Nord-Express que continuava até St Petersburg. Na altura em que a aviação não era acessível nem vulgar, o Sud-express era amaterialização da esperança de uma outra vida.

Orly ou Sta Apolónia, o dilema impõe-se: quando vislumbramos o sonho embarcamos ou permanecemos?

Por princípio, eu recomendaria sempre: embarquem, corram riscos, atirem-se de cabeça atrás do sonho. Certamente que se falamos de realidades insuportáveis não há que hesitar. O desespero com o presente pode ser tanto que qualquer destino serve.

Mas, se não for o caso, então talvez seja melhor pensar duas vezes, escutar aqueles que dizem que aquilo que buscamos pode ser encontrado dentro de nós. Sabedoria de Vida é ser capaz de usufruir o presente sempre da maneira mais serena possível dizia Arthur Schopenhauer.

Não sei se essa sabedoria vem com a idade. Pode ser que aquilo que vem, seja apenas comodismo. Fica pois a dúvida: receio de arriscar e prudência ou desvalorização da expectativa? Ou ambas?
Não sei. Sei que gosto de ver os aviões partir, sinto saudades daquilo que não vou ver, mas não me apetece embarcar.

Receio cada vez mais que a única descoberta que quem viaja faça, é que não há nada a descobrir, que foi atrás de uma ilusão.
Recordo uma velha história zen: um homem procurava a iluminação e ouviu falar na existência de um mestre que vivia numa aldeia longínqua, para lá das montanhas. E o homem decidiu-se pela grande viagem à procura do mestre. Quando, depois de muitas atribulações, finalmente o descobriu o homem pediu humildemente: “ensina-me o caminho para a iluminação” mas o mestre virou-lhe as costas e disse secamente: “não há nada que te possa ensinar”

Sem comentários: