sexta-feira, julho 06, 2007


Livraria Barata
Na Av de Roma nº 11, havia no inicio da década de 60 uma pequena livraria, que tinha duas particularidades: 1 - o proprietário, o Sr Barata, era antipático; 2 - vendia livros proibidos pela censura.
A livraria era pequena, tinha um balcão mesmo no meio da sala. Ao fundo, uma porta dava para um pequeno armazém onde os clientes especiais podiam escolher a mercadoria.
Como morávamos perto, a minha mãe ia lá comprar os livros escolares, os cadernos, os lápis e tudo o mais. Queixava-se ela: "Dar os bons dias àquele senhor ou falar para os candeeiros é exactamente a mesma coisa: não se ouve uma resposta!"
Eu tinha um professor que, como se dizia na altura, "era da oposição". E abastecia-se, de livros proibidos, na livraria do nº 11 da Av de Roma. Um dia, o proprietário da livraria foi preso pela PIDE. Pânico nas hostes! O meu professor pediu-me para eu guardar em minha casa uma mala cheia dos tais "livros" enquanto as coisas não acalmassem. O proprietário da livraria poderia ser gentilmente solicitado a indicar os nomes e moradas dos seus clientes especiais, e era uma chatice...
De modo que, lá levei uma mala cheia dos tais livros para casa, que meti debaixo da minha cama. Fiquei orgulhoso pela confiança do meu professor e pelo acto de transgredir.
Quem não achou graça nenhuma foi a minha mãe: "Já viste o que estás a fazer? Ainda podes arranjar sarilhos por teres isso cá em casa!..."
Pobre senhora! Salazarista convicta com livros proibidos escondidos em casa!
O Sr Barata acabou por ser libertado, o meu professor não teve problemas e os livros voltaram à sua posse uns meses depois.

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