sábado, julho 28, 2007



O meu "Livro Vermelho"



Porque sabiam que eu ia gostar da prenda, (apesar de nunca ter sido maoista), os meus filhos trouxeram-me, há dois anos, da China, o Livro Vermelho.


Simbolo da Revolução Cultural promovida por Mao Zedong a partir do ano de 1966, com a finalidade de afastar a "burguesia liberal" e repôr a pureza revolucionária inicial, depurando a Revolução de todos os desvios "revisionistas".


Entre 1966 e 1974 eu estava no Técnico e, como todos os universitários da época, fui atraído por novas ideias e visões do mundo, muitas vezes conflituantes e contraditórias entre si . Foi um periodo muito rico, fruto de circunstâncias que dificilmente se repetirão.

Houve o Maio de 68 em França e por cá, na sequência da incapacidade de Salazar, o Almirante Américo Thomaz escolhe Marcelo Caetano para a chefia do governo. Pela pequena abertura política concedida, entrou de froma imparável uma verdadeira revolução nos costumes, nas ideias, na cultura.


Não posso aqui fazer (nem o saberia...) a história desse periodo. Mas gostava de registar uma pequena imagem do que foi esse tumulto.


No Salão Nobre de Técnico, João de Freitas Branco, equipado com um pequeno gira-discos, dáva-nos a ouvir as óperas de Wagner e depois dáva-nos a sua leitura. Na Associação, tentávamos o renascimento do Club Universitário de Jazz Universitário. Quinzenalmente íamos ao Cineclub Universitário no antigo cinema Imperial, descobriamos a nouvelle-vague que serviu de porta de entrada, pelo menos para mim, para conhecer os clássicos americanos.

Depois havia os Doors, os Cream, Jimmy Hendrix. E o free jazz.

Maio de 68, e a guerra colonial que nos esperava, trouxe-nos a vontade de virar tudo do avesso. Politicamente era dificil decidir para onde ir: líamos Trotsky, Lenine e Mao. Joschka Fisher, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, também ele adepto da Nova Esquerda, apelidou os movimentos estudantis de "anarco-mao-spontex". "Anarco" porque tinham influência dos movimentos anarquistas clássicos, "mao" porque se inspiravam num Mao mitificado, imaginado como não totalitário, e "spontex" porque eram contra toda e qualquer disciplina militar e burocrática normais nos tradicionais partidos marxistas.

Depois havia leituras. Num turbilhão desordenado, nós, estudantes de engenharia, discutiamos Freud, Lacan e a psicanálise, Saussure e a linguistica, Lévy Strauss e a antropologia... Não devíamos compreender mais de 25%, mas isso não nos atrapalhava a leitura nem a discussão.

Foram as circunstâncias, e não o nosso mérito, que nos porprocionaram este caleidoscópio extraordinário. Tenho saudades... claro!



Sem comentários: