Gosto de Música. Logo não gosto dos ABBA.
Dietrich Schwanitz – (“Cultura – Tudo o que é preciso saber”) afirma que uma pessoa culta deve saber aquilo que deve gostar, mas deve também saber aquilo que “não deve” gostar.
Numa análise simplista esta frase aparenta um irritante pretensiosismo, pois parece sugerir que quem pretenda passar por “culto”, deve Não Gostar de certas obras, ou então fingir que não gosta delas e se as quiser desfrutar, o melhor é fazê-lo às escondidas. E, desta forma preserva a imagem de “pessoa culta”
No entanto, a frase tem alguma razão de ser. O gosto evolui com a experiência. Quem nunca provou um doce de ovos-moles, ou um pastel de Belém, pode considerar uma cavaca dura das Caldas um manjar dos deuses. O “mau gosto” que deriva da ausência de outras experiências, é impróprio de alguém que se pretende culto.
Quem se considera como possuidor de vasta cultura não pode ignorar que existem doces de ovos-moles ou pastéis de Belém. E, se os souber provar, terá que declarar: não gosto de cavacas duras!
Mas então de onde vem aquela frase: gostos não se discutem? Não será o gosto uma questão subjectiva? Terá alguém o direito de impor um padrão estético, decretando o que é bonito e o que é feio?
Parcialmente a resposta é sim!
Há de facto formas de apreciar que são do domínio subjectivo – por exemplo a emoção que sentimos a ouvir uma determinada obra – mas também há formas de apreciar que são objectivas – qualidade da orquestração, qualidade sonora, ausência de fífias, mestria técnica dos intérpretes, etc.
A música foi feita para ser “sentida” para transmitir emoções. Como ouvinte, quando gosto do que oiço, sinto-me imerso num mundo irreal. Sinto-me transportado para um espaço onde sinto alegria ou melancolia, entusiasmo ou desespero.
É essa a emoção que procuro quando oiço música. Mas há aspectos objectivos que podem ser reconhecidos como determinantes na criação da emoção.
Vejamos alguns.
Em primeiro vejamos a estrutura da composição musical, a forma como se arrumam os sons. A sequência das notas musicais, a ordem que é assim construída apela a uma abordagem racional. Aliás, a música esteve sempre próxima das ciências, e em particular com a mais racional de todas as ciências – a matemática.
Na idade média, após a queda do império romano do ocidente, um filósofo chamado Boécio, (480-524) de origem romana ao serviço do rei ostrogodo Teodorico criou um programa pedagógico - o quadrivium -que envolvia quatro disciplinas: música, aritmética, geometria e astronomia. Colocada a Música entre as ciências exactas, admitia-se que se podia criar música utilizando apelas a lógica
Mais tarde, João Sebastião Bach, confrontado com a necessidade de mensalmente ter que apresentar uma obra nova, acabou por descobrir métodos que lhe permitiam cumprir as suas responsabilidades de forma célere.
Bach (Ver Daniel J. Boorstin – “Os Criadores”) acreditava piamente que havia “uma maneira” correcta de escrever uma peça musical. Quando ouvia o início de uma fuga, segundo conta o filho Carl Philipp Emanuel, ele dizia logo “quais os recursos de contraponto se poderiam aplicar e de qual deles um compositor que se prezasse devia servir-se”.
Tinha as suas regras tão claramente assumidas que os seus manuscritos são notáveis pelo aspecto limpo e ausência de correcções.
Bach considerava-se um artífice. Aperfeiçoara um método que qualquer um poderia utilizar: “Tive de trabalhar muito; qualquer outro que trabalhe tanto como eu chegará onde cheguei.” Não é verdade. Bach foi um génio e a sua música é muito mais do que a aplicação fria de regras para juntar sons. Ouvir a Missa em Si Maior, é sentir a presença de Deus. Só um génio, pode fazer sentir a presença de Deus a um ateu.
A supremacia da música erudita e do jazz sobre a música dita “ligeira”
A música dita ligeira é como o próprio nome sugere uma música “levezinha”, isto é, não é uma música complexa nem na sua melodia nem na sua harmonia. Para quem não está familiarizado com os conceitos eu esclareço de forma expedita: Melodia é a evolução da linha sonora que o cantor emite e harmonia a evolução dos acordes tocados pelo piano que acompanha.
A harmonia da música ligeira é normalmente muito simples, às vezes bastam 3 acordes diferentes para ter o acompanhamento estabelecido. Apesar disso, há melodias bonitas com harmonias extremamente simples. Mas convenhamos que são raras, porque os alicerces do edifício não suportam grandes arrojos arquitectónicos.
A harmonia cria a estrutura, o “ambiente”, e este é determinante para a transmissão das emoções.
É sabido que a utilização de acordes menores transmite um clima melancólico enquanto que os acordes maiores transmitem alegria.
A utilização de notas alteradas nos acordes, isto é a adição de notas que não pertencem ao acorde normal provoca ambiguidades, o acorde deixa de ser puro e abre outras perspectivas para os acordes seguintes. E ocasiona tensões: a música fica num estado instável e sentimos a necessidade de ver chegar a estabilidade. Mas ela vem de forma fugaz e volta a fugir.
Este jogo não é apenas um deleite para a razão, é também a base das emoções. Melancolia, alegria, complacência, tristeza que faz chorar e o paradoxo da simultaneidade do prazer por sentir as lágrimas. Isto só a grande música é capaz de fazer. Fechem os olhos, oiçam o adágio da quinta sinfonia de Mahler, e digam lá se não tenho razão!
Para se evoluir no gosto pela música é pois necessário um esforço de ouvir coisas diferentes, habituar o ouvido a novas sonoridades.
Claro que há quem não queira fazer o esforço e queira continuar a gostar dos ABBA. Tem obviamente todo o direito. O mesmo direito de quem prefere cavacas duras a pastéis de Belém.
Pois comam-nas todas e deixem os pastéis de Belém para mim!
quarta-feira, junho 09, 2010
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